domingo, 18 de outubro de 2009

Antropocentrismo

Há algum tempo surgiu uma discussão numa rede da qual participo. Começou com uma observação de que o “verdadeiro” ambientalista não come carne. Pra começo de conversa, não sei nem se posso me considerar um ambientalista. Depois, tenho uma resistência brava a generalizações e, por isso, acho difícil definir o que é verdadeiro. Acabei participando da discussão de maneira equivocada. Defendendo o direito a uma picanha eventual, apesar de achar que realmente é necessário reduzir o nível de consumo de carne. Me excedi em algumas observações.

Bem, mas o que me incomodou mais e que interessa aqui é o argumento de alguém, em meio à discussão, de que nos achamos no direito de consumir a carne de outras espécies porque privilegiamos a nossa. Seria sinal de “antropocentrismo”.
Isso não é um comportamento natural? Todas as espécies de animais tentam se manter vivas. E para isso consomem outras espécies. O problema da nossa espécie é não ter limites para seu consumo. Não consome apenas para sobreviver, como todas as outras. Consome além de suas necessidades. A nossa grande questão é estabelecer esses limites.
Parece uma conclusão banal e óbvia, mas creio que muitas vezes perdemos essa noção. Extrapolando, acho que é a perda dessa noção que faz com que muitos tenham dificuldade de entender que é normal uma situação em que uma comunidade acostumada a desmatar para retirar disso sua sobrevivência não aceite facilmente a argumentação de que é preciso encontrar outra forma de se manter. Para conseguirmos interromper o desmate, temos que oferecer uma opção para essa comunidade. Se não, seus integrantes farão o que qualquer outra espécie faria: continuarão trabalhando do jeito que sabem para garantir comida para si e seus descendentes. Mesmo que isso leve à destruição do ambiente em que vivem.
A nossa sorte é que temos consciência dos efeitos de nosso comportamento e podemos modificá-lo antes que ele resulte no desastre absoluto. É preciso disseminar essa consciência de que somos parte de um ambiente e nossos excessos tem efeitos. Mas é preciso compreender que sempre os humanos tentarão manter sua espécie viva. E farão isso a custa de outras espécies, se for necessário. É preciso evitar que isso seja necessário. Mas é impossível impedir que isso aconteça em alguns casos.
Sim, somos antropocêntricos, assim como o tigre é felinocêntrico, a baleia é cetaciocêntrica e a aranha é aracnocêntrica. Se é que estes termos existem. O problema é que, como somos a espécie dominante, os efeitos do nosso comportamento são multiplicados.